terça-feira, 25 de setembro de 2012

Calendários

O calendário estava na contra-capa do caderno de anotações. Caderno velho, calendário antigo e dentre as datas ultrapassadas nenhuma se destacava. Os dias eram números que se somavam sem resultado. Folheou o caderno, números de telefone, e-mails, frases, coisas da faculdade... E uma certa tristeza que não poderia anotar, em algumas páginas brancas.

Quis fugir. Jogar para longe o caderninho velho, mas uma meia frase lhe fez lembrar de uma certa data. Havia escrito ele mesmo, mas em outros tempos quando ainda era outro, anotação sem relevância e se referia a uma sexta-feira 13, porém, lembrava-se agora, havia escrito no dia seguinte, dia 14. Lembrava-se daquela anotação porque esse dia ficaria marcado numa certa página em branco, ele e seus pormenores. Era o dia em que havia conhecido uma moça. Agora lhe ocorria o número 2 para ela. A garota ''número 1'' havia sido então seu preludio. Lembrou-se de ambas, mas rapidamente se esquecera da número 1, mera antecessora. Aquilo lhe interessou vivamente e se sentou para calcular e lembrar mais.

Fazia agora cinco anos essa história. Havia se livrado de tudo que lembrava a garota número 2, inclusive o diário que ela o presenteou no sábado dia 14. Diário que tinha uma foto dela, e além disso, sua fragilidade de menina, coisa que valia mais do que poderia calcular na época.

O caderno de anotações seguia, mas sem mais datas ou anotação de datas e, curiosamente, nada sobre a garota número 2. Deveria estar ocupado demais amando-a. Depois, apenas páginas tristes em branco, agora pareciam muitas, dezenas e dezenas até o fim.

Riscou o dia 14 no calendário da capa. 14 de março. Março, mês 3, mês do seu signo, peixes, e também de aries. Primeiro mês do ano na astrologia.

Continuou a lançar outros resultados sobre o calendário. Havia sido paixão no mesmo dia, podia ver agora a realidade daquele dia a sua frente: 14/03/09. Quatorze de março de dois mil e nove. Devidamente registrado para sempre no tempo, nas anotações gerais do subconsciente coletivo da humanidade. Mas qual símbolo, arquétipo ou imagem poderia formular? Lhe ocorreram muitas. Amor certamente, amor, por que não? Amara a garota numero 2? Amara?

E agora enquanto revivia aquele dia e suas imagens lembrou-se da noite, por volta das dezoito, quando ela, depois de um dia de conversa (e fome), o puxou pelo braço e disse que precisava lhe mostrar a.. Esqueceu-se do monumento, igreja? Tinha uma igreja na praça? 1 igreja lhe era um número indiferente. Não viu a igreja, mas sentia ainda o 'gosto' de um certo banco de praça, ocorrera-lhe "gosto" pois as lembranças muitas vezes ocorrem no ponto mais sensível,  e no seu caso agora era a boca.

Beijou. Não a boca, não ainda, mas o rosto, permitiu-se se perder nele. Não há palavras em calendários que digam alguma coisa, mas ainda agora, sabia com exatidão as palavras que havia pensado: 6. Seis palavras.

Seis palavras. E não poderiam ser outras.

Beijo simples, beijos seguidos, beijos se somando, mas decrescendo, se tornando um, somavam-se e iam se fundindo, perdia as contas e no final se contou 1, como deveria ser. Resultado dos melhores, dificil e raramente obtido duas vezes.

Quantas datas e resultados agora tinha em mãos. Restava-lhe correr os dias, saber o dia triste em que perdera a garota número 2.

Essa data havia sua marca clara, lembrava de cabeça. Um dia antes do dia dos namorados acontecera o primeiro ato, e um dia depois, o segundo e último. Foi assim, em duas partes, com um intervalo de um dia. Dia 11 e 13. Notou então a semelhança de datas, três meses entre o dia que a conhecera e o dia em que a perdera. Ou um dia antes de três meses devidamente.

No dia 11 havia novamente a visitado, não seria a última vez, mas depois do dia 14, nem ela nem ele seriam mais os mesmos. Havia se despedido dela precocemente. Um erro, mas não poderia saber na época, sim, não poderia saber, e somente agora com o calendário em mãos é que poderia calcular os resultados.

Não a havia abraçado forte e lhe comunicado com isso que a amava. Poderia também ter comunicado as seis palavras que ela deveria saber quando se beijaram pela primeira vez e ele nunca disse. Certamente pensou que haveria outra oportunidade. Mas os dias já estavam marcados. Poderia, se tivesse olhado melhor as datas das coisas, ter visto que o coração da garota número 2 estava cansado de te-lo pela metade. Que ela era a segunda de sua vida apenas por que esperava o dia em que ele devidamente a escolheria como única, como primeira, como resultado lógico daquelas 6 palavras que ele guardava consigo.

A garota número 2 o olhou enquanto ele ia embora, ia embora subindo no ônibus, ia embora a deixando... Nesse momento algo estava errado, o dia seguinte era o dia dos namorados, e ele a havia deixado.

Ele a procurou no dia 12. A encontrou no telefone... Estava de saída, quis impedi-la, mas não sabia o que dizer na época, poderia ter dito as seis palavras quem sabe, a última chance de dize-las quem sabe. A garota número 2 havia tomado estranha decisão naquele dia 12, não passaria ele sozinha, não seria número 2, mas 1 para alguém.

E ele não a encontraria mais nas próximas datas.