sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Vermelho Gabriela

Era assim todos os dias, impreterivelmente: acorda, tira a pilha do relógio, volta a folha do calendário, fecha a cortina, baseado bem bolado. Às vezes tinha um livro, o folheava tal qual o calendário, palavras, frases. Algumas lhe reverberavam na cabeça, tal qual o baseado bem bolado. Num trecho lia: "agora podia sentir seu lado humano". Sim ele podia sentir seu lado humano.
Lembrou-se de uma vez, quando estava com certa garota: estavam penetrados corporalmente e, naquele momento, soube que podia sentir seu lado humano.
Ele só acreditava no apalpável, no que se podia tocar. Fora essa mesma garota que o transportara a tal vida de agora (medíocre para uns, diga-se de passagem). Tinha se apaixonado pelo belo par de seios, codinome Gabriela.
Até então desconhecia o gosto do tabaco, o gosto da erva e do orvalho. Da massa e das maçãs. Sentiu vontade de comer maçãs, esquecera-se do gosto momentaneamente, depois lembrou. Mas seria massa ou maçã o que agora lhe invadia a boca? Não soube, talvez nunca mais o fosse saber, sentiu medo. Releu em um dos livros: "agora podia sentir seu lado humano". Agora podia, podia, podia sentir seu lado humano, humano...
Ocorreu-lhe a mente uma frase, Gabriela dissera uma vez: "Te amo, menos do que você a mim, mas mais do que eu a mim mesma". Reminiscências de um par de seios, de um nome e agora de uma frase.
Lembrou-se de outra ocasião em que estiveram a sós. O silêncio, como sempre, consentia nos lábios do humanizado. Naquela lembrança, estava ela debulhada em êxtase. Lembrara-se ele de que vez alguma a vira assim. O amava e somente por alguns minutos. Era como se fossem transportados ao paralelismo de um passado distante. Numa única badalada, voltavam a ser João e Maria.
“Somos mesmo amantes ou inimigos, não?” - era o que Gabriela costumava dizer. O dizia inspirada no que ouvia. Na música popular brasileira.
E ele nada dizia, inspirado talvez na musica clássica, Bach. Ela não conhecia, talvez por isso não pudesse sentir que ele também falava, mas não como música popular brasileira, mas como violino. Não com retórica dos namorados, mas com poesia de gestos.
Não se lembrava a cor do cabelo de Gabriela, um castanho desmaiado? Não, isso eram seus olhos... Seria ruivo? Não, vermelhos eram seus modos. Preto? Loiro? Castanho? Não, assim não poderia ser. Gabriela era sem meios termos, era extremos. Incrivelmente, não estava todos os dias bonita. Era visivelmente linda aos olhos do apaixonado, exótica, aos olhos dos simpatizantes e feia aos olhos do mundo. Seu amor era transitório, bêbado, desequilibrado. E ele era o equilibrista. A cada dia era uma luta trazê-la para dentro de si, no corpo e na alma.
Após fechar o livro que o reportara a tais lembranças, morder uma maçã e logo em seguida jogá-la no lixo, pegou sua jaqueta jeans furada e partiu rumo fora daquele quarto. Sua mãe sempre lhe dizia que era bom levá-la consigo, caso fizesse frio. Tinha poucas lembranças maternas, mas as que tinham eram muito fortes. Também eram mesmo amantes ou inimigos.
Era o sexto dia da semana, o dia de sentir seu próprio lado humano, o dia que o encaminhou para fora. As ruas eram uma coisa entre pálidas e secas, assim como seus transeuntes. O céu era de verão, apesar de tudo, as pessoas pareciam sufocadas. Ele contemplava a tudo indiferente. Sua jaqueta furada o protegia de tudo, meteu o dedo pelo furo e pôde quase ouvir mais uma vez sua mãe pedindo para costurá-la. Quando foi que de amante passaram a inimigos? Talvez no dia em que ela a costurou, de fato, a angústia lhe invadiu o peito mais uma vez, a fúria. Ela não tinha o direito, não poderia tê-la costurado. A re-furou inúmeras vezes tentando encontrar o ponto certo, o ponto harmônico. Impossível. Parou e espirrou, algumas lágrimas desceram de seu nariz, era salgado e quente.
Gabriela, fora ela que descobrira o ponto exato, o furo certeiro, a questão é que ele ia se esvaindo, vazando... Mas dessa vez ele se certificaria para que ninguém o costurasse.
Vazava, mas não era seu amor, pelo contrário, ele permanecia, era a única coisa que permanecia, aliás. O resto ia se esvaindo, ia sendo despejando para fora.
- Eu amo você, demasiadamente e urgentemente - disse uma vez Gabriela em mais uma de suas lembranças.
- E eu amo você, desmesuradamente e...
Não dissera na ocasião a palavra, mas agora ela lhe concretizava a boca. Agora, depois de tudo, sabia exatamente a palavra que faltava, a palavra que a tudo explicaria.
- Amo você desmesuradamente e mortalmente - ficou a repetir a frase.
Não pode remontar agora o motivo, a causa, mas ele a machucara, certa vez ele a ferira, como poderia?
Angustiou-lhe o peito essa possibilidade, tentou pensar que não, mas sabia em crescente desespero que sim, embora ela a princípio negasse e ele não pudesse, na ocasião, fitar-lhe os olhos. Podia sentir as borboletas morrendo em seu estômago.
Ele pediu desculpa, bem que as pediu. E ela aceitou, bem que as aceitou. Mas estava além de palavras, o que a boca expressava era alheio ao estômago, como se essa, de alguma forma se desvinculasse desse último. E as borboletas agora jaziam mortificadas, talvez para sempre.
Por uma vez mais quis chorar, mas estava seco demais para tal privilégio. Gabriela era seca, aliás, talvez fora ela que o secara.
Parou no primeiro orelhão que avistou na rua, ainda era memorável o número de Gabi. Comprou um cartão telefônico de um português com sotaque e tudo, se deparou frente a números, lembranças. Sentia medo agora, sua mão direita tremia mais que sua perna em noites frias. Deixou de hesitar, discou. Gabriela atendeu depois de quatro toques.
-Alô? -  ele reconheceu a voz. Ainda madura, segura. Frustrante para o rapaz, que não queria ficar mais intimidado. Ele queria conhecer o novo rosto de Gabi, sabia que havia mudado.
-Gabriela...? -  após isso, houve uma pausa torturante na voz da jovem. Ela sabia quem era e mesmo assim não se importava. Gabriela nada disse, saiu da linha sem ouvir, nem pronunciar uma frase sequer. Mesmo assim, ele ficou no orelhão a conversar consigo mesmo. Tudo que pensara estava sendo pronunciado pelos seus lábios em forma de sussurros, chiados.
Olhou longe e assim viu bem onde estava, estava mais perto do seu lado humano, por fim estava. Não veria mais Gabriela, era certo.
Voltou para casa, quis recomeçar o sexto dia da semana. Dormiu por um longo tempo: Sétimo dia, acordou, colocou a pilha no relógio, arrancou a folha do calendário, abriu a cortina, tinha acabado o baseado.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Depois da noite antes da madrugada

Despertou antes que os olhos. Aquela sensação era nova, desconfortável e nojenta. Os olhos grudados por causa da secreção, tentava abri-los e manter a calma enquanto isso. Era conjuntivite, e em ambos os olhos. Estava bem agressiva, passava os dias lacrimejando e com grande sensibilidade a tudo, no dia anterior havia tido febre e dores pelo corpo.

Despregou os olhos, pegou a garrafinha de água boricada, o colírio, o cotonete e saiu. Abriu a porta do quarto e, de cabeça empinada para poder enxergar melhor, caminhou até o banheiro.

Fechou a porta e tentou se ver no espelho. Não queria de jeito nenhum que alguém a visse assim, nunca imaginou na sua vida que pudesse existir uma conjuntivite desse tipo. Ficou olhando o espelho por um tempo, depois iniciou o processo de limpeza. Quando terminou pode finalmente abrir por completo os olhos castanhos porém vermelhos. Vermelhos, manchados de vermelho. Suspirou e voltou pro quarto. Deitou na cama, cobriu-se da cabeça aos pés. Conseguiria dormir de novo, mas não por muito. Acordou com a mãe abrindo a janela do quarto.

"Acordou? Me Deixa ver. Ta feio ainda. Já tou saindo. Vê se levanta da cama. Tenta fazer alguma coisa, arrumar o quarto pelo menos… Não vá ficar o dia inteiro deitada".

Assim que a mãe saiu se levantou. Fechou a porta do quarto, passou chave, depois foi a vez das janelas e cortinas, voltou pra cama.
 -
Nunca saberia o quanto dormira, ou que horas eram. Sentiu-se estranhamente melhor, bem disposta. Depois de um bocejo se espreguiçou com prazer. Sentou-se na cama e puxou o celular da cômoda a fim de checar as horas, mas a bateria havia acabado. Levantou-se devagar, foi até a janela, abriu, deu uma olhada lá fora. Já era noite, parecia ser tarde, talvez madrugada. Não, não dava pra ter certeza, aquela rua era sempre daquele jeito. Poderia ser tarde mas nem tanto... Esboçou um sorriso, sentia seu corpo com vida novamente, os olhos pareciam bem, estavam apenas coçando. Voltou e estirou-se na cama. Que horas eram? Será que a mãe já tinha chegado? Será que já poderia fumar seu cigarro tranquila?

Ficou de pé num pulo, foi até sua cômoda, tirou seu maço de cigarros e o isqueiro que havia ganhado de presente. Foi até a janela, acendeu e tragou. Ficou a olhar o isqueiro e a noite… Seu amigo Mauro havia ficado uma fera quando soube que ela estava fumando. Ele nunca saberia, mas ela gostava de lembrar disso e rir sozinha.

Gostava de pensar nele também.

Ela ficava olhando para ele tentando adivinhar sua expressão, nunca o entendeu direito. Alguns dias depois dele ter brigado com ela por causa da "modinha" do cigarro, ele deu o isqueiro que agora usava de presente para ela. Será que ele queria faze-la sentir-se mal com o presente, ou não conseguia defender suas opiniões diante dela? Será que a queria agradar como os idiotas? Um homem submisso? Ela bem que gostaria disso, riu de novo. Parou de abrir e fechar o isqueiro, gostava de fazer isso como nos filmes, jogou-o na cama. Meteu a cabeça pra fora da janela e tentou encontrar a lua. Não conseguiu, o céu estava limpo, mas as casas eram muito grandes. Que horas eram?

Seu pensamento voltou a seu amigo. Mauro. Mauro tinha sido seu primeiro namorado na primeira série. Tinha uma relação esquisita com ele, pensava que não gostava dele, parecia não gostar, mas gostava, só que de um jeito que só algumas pessoas poderiam entender. E Mauro não era uma dessas pessoas...

Arremessou o cigarro pela janela, foi até a porta, mas ela estava trancada. Não sabia mais onde colocara a chave. Resmungou e começou a revirar os lençóis e abrir gavetas. Encontrou a chave por entre os lençóis da cama. Foi até o banheiro, examinou os olhos, estavam com aspectos melhores, graças a Deus. Lavou o rosto e escovou os dentes. Ia sair.

Voltou ao quarto, colocou uma roupa e pegou seus óculos escuros. Desceu as escadas, pelo silêncio e escuridão da casa já deveria ser bem tarde mesmo… Ou talvez não, quem sabe? E sua mãe, já dormia ou tinha ficado até mais tarde no serviço? Nem se lembrou de olhar as horas, destrancou a porta, o portão e saiu pra rua. Colocou os óculos, havia levado seu cigarro consigo também, seu cigarro e seu isqueiro. Acendeu um.

Agora já podia ver a lua, ela estava no ponto mais alto do céu, como se fosse o sol ao meio dia… Quem sabe não fosse meia noite? Andou alguns quarteirões até a casa de Mauro. Tocou a campainha, teve de tocá-la algumas vezes até ele aparecer pela janela do segundo andar.

Sorriu, Mauro foi ao seu encontro. Ele apenas a encarou. E ela o encarou de volta.

- Ainda ruim da conjuntivite? O que aconteceu?
- Por que você me deu esse isqueiro?
- Quê?
A garota puxou o isqueiro do bolso.
- Por que você me deu?
- Veio aqui essa hora pra perguntar isso?
- Por que me deu?
Mauro olhou a rua.
- Ta tarde.
- Tarde pra você.
- Por que disso agora, menina?
Mauro se virou para entrar, mas a garota o agarrou pelo braço.
- É sério, por que me deu?

Mauro olhou profundamente aquela menina, aquela menina de óculos escuros e de cabelos finos, aquela menina com conjuntivite. Ele amava até sua conjuntivite. Mauro sorriu como não costumava fazer, ela o olhou novamente tentando adivinhar o que seria aquele sorriso.

Se olharam num silêncio que começou a incomodar a menina, se olharam, e por fim ela baixou a vista temendo ouvir o que agora já sabia.

- Você fica bonita fumando, confesso.
- HAHA. Por que você não disse logo? – riu a garota aliviada  – Pensando bem, era a única coisa que poderia dizer, afinal eu fico mesmo!
- É sim...
A garota temia encara-lo agora.
O rapaz sorriu, a garota temia ainda.
A garota o beijou no rosto.
- Tchau.

A garota seguiu seu caminho para casa. O acontecido mexeu um pouco com sua cabeça… Mas ela já não sabia? Não deveria ter ficado daquele jeito.

Voltou pra casa, pro seu quarto, pra sua janela, pro seu cigarro. No entanto este seria o último. Iria parar de fumar. Sim senhor. Tragou pela última vez. Sorriu olhando a lua. Era um modo estranho de se convencer as pessoas, pensou, estranho, mas muito eficiente, o amor.

domingo, 28 de outubro de 2012

Invernia

Era ainda inverno. Ao despertar nesta manhã, como em todas as outras, lembrava-se da primeira vez que acordou sozinha naquela casa, quando ainda era verão.

A casa do pai na praia, "a casinha", como chamavam... Na frente o portão velho e baixo, mato, a casa rasteira de porta trancada a improviso. Morava lá sozinha agora. Um feito incrível - considerava, já que tinha seus 14 anos apenas.

Sorria nas manhãs, seu sorriso preferido de todos os tempos. Não que houvesse tantos tempos, ou estações em sua vida, mas isso incluía os tempos que ainda viriam e as estações que ainda não despontaram. Sorria para o espelho, sorriso solitário, mas íntimo, que uma foto não poderia guardar. Depois daquele momento e ritual pensou como seria seu dia. Os dias agora eram sempre seus. Mas hoje iria dividi-lo com seu pai, que novamente viria vê-la.

Era bom porque ele traria comida e talvez dinheiro. Sentia que seu pai se convencia de que ao menos a relação dos dois agora andava melhor. Sem brigas. Falavam pouco por causa das mágoas, mas falavam mais pelo que não diziam, o que incluía respeito pela força um do outro, e uma preocupação um com o outro...

Não iria a escola. Começou seu dia por arrumar a cama, tomou banho, fez seu café. Tomou o café calada, não havia com quem falar, mas tinha a impressão de que tomava o café calada, e isso era bom.

E assim, calada e séria decidiu que iria à praia pensar. Levou sua bolsa e o celular, pois o pai ligaria logo.

De repente, enquanto arrumava a casa para receber o pai sentiu um pavor a brotar-lhe, teve uma lembrança de certa briga pesada com ele, seu medo vinha de isso acontecer novamente e ela não ter mais forças para... Acalmou o peito com o pensamento de que, se isso acontecesse, não iria mesmo encara-lo, ela já não era mais a mesma, talvez esse fosse seu medo.

Caminhou para a praia, trajeto de mais ou menos um quilometro, mas em linha reta. Era uma trilha que conhecia desde criancinha e que adorava trilhar, e gostava ainda mais de voltar de moto com o pai.

Ainda hoje, aquele caminho era fechado, caminho de terra, poucos moradores, e muito da natureza própria do lugar.

A praia estava vazia, não era temporada, mas o tempo estava aberto e leve, o sol se fazia presente e a iluminava sem interferências. Sentou-se na areia e acendeu seu cigarro. Era inverno, e agora lhe ocorria o pensamento de como estava bem adaptada interiormente aquela estação, talvez por isso andava bem.

No inverno a natureza se recolhe, a vida se cala, as noites são mais longas e os dias mais curtos, lembrou-se das águas dos lagos congeladas, como via na tevê quando era criança, da neve, dos sons da natureza emudecidos e a terra adormecendo sob um tapete branco. Sim, já não lhe ocorria, já ha certo tempo, as explosões inquietantes e até aquele impulso que agora reconhecia como "rebeldia barata" encaminhava-se para a serenidade, não seria mais a garota que havia prometido ser... E reconhecia isso com essa serenidade. Isso lhe pareceu bom. Não sabia ainda exatamente quando lhe ocorreria a primavera em seu interior, quando sairia para fora a florescência dessa elaboração sua, mas isso não a preocupava, estava bem adaptada ao inverno, amava também o inverno, sabia que apenas aparentemente a natureza estava morta nessa estação, e que, nas profundezas da terra, as forças poderosas preparavam uma metamorfose, cujo o resultado só seria notado na estação seguinte.

Quando o cigarro acabou olhou o celular e as horas. O pai deveria ter preferido almoçar primeiro antes de vir - O que a desagradava. Ficaram combinados de que ligaria quando estivesse a caminho.

Decidiu ir comprar um sorvete no carrinho que agora passava. Foi molhar os pés no mar, comia o sorvete, admirava o sol.

Ligou a cobrar. Caixa-postal. Isso a incomodou mais, pensou em ligar para a casa do pai, falar com alguém, mas não, deixaria o recado para ele na caixa-postal como ele queria.

Uma certa raiva e preocupação a acompanhavam agora. Pensou em voltar para casa, mas ficou. Acendeu outro cigarro e esperou. Achou que o pai não viria mais, que a estava evitando por algum motivo, esperava agora por uma ligação sua para avisa-la. Poderia chegar a noite talvez, mas isso era improvável.

Nesse momento, sem aviso nem licença, um um garoto sentou-se ao seu lado. Ela o olhou, mas não disse nada, ele perguntou se ela estava bem, ela o olhou novamente, tinha um rosto bom. Conversaram brevemente sobre a estação, ele lhe perguntou o nome...

- Patricia.

Patricia cortou algo que ele ia dizer e lhe pediu de comer, o garoto riu e prontamente a atendeu, saiu e  voltou com um belo lanche.

- Você me salvou - sorriu ela para ele.

Conversaram mais, decidiram caminhar, se distraiu, embora um desespero secreto e mudo agora lhe crescesse. Nada do pai e por algum motivo ainda desconhecido, lhe era assustador voltar para casa com essa perspectiva.

Despediu-se do rapaz, agradeceu-lhe novamente, ele pediu o seu telefone, ela cedeu.

Voltava agora para casa assustada, como uma criança que havia se perdido, era fim de tarde, e a noite prometia ser das mais longas. Não havia mais uma moto para leva-la depressa para casa, leva-la a salvo para tomar banho, jantar e depois dormir exausta com a perspectiva de brincar ainda mais no dia seguinte. Estava só, e não havia mais brincadeiras para distrai-la disso. Pensou em ir no vizinho pedir emprestado o telefone, mas não.

Colocou a bolsa em cima da mesa, olhou outra vez o celular. Amaldiçoou o pai e foi para o chuveiro. Depois fez seu jantar e comeu falando sozinha. Pensava em não atender o telefone quando o pai ligasse mais tarde, mas isso lhe soou infantil, sim, era ainda muito infantil.

Começou a encarar a perspectiva de que talvez o pai havia decidido ignora-la, ver até onde ela ia de fato sozinha, havia falado com ele três dias atrás, mas isso não queria dizer nada. Sentiu medo de ficar sozinha nesta noite, ela poderia se virar bem ao menos nesse mês e no próximo, fez cálculos de providências, dinheiro, tinha ainda a escola, e uma professora para ajuda-la, sim poderia contar com ela. Armava-se assim contra o pai, mais uma vez.

Voltou a comer em silêncio. Mas no mais profundo, alguma coisa continuava a desesperando e traindo sua auto-confiança. Tomou água e foi para cama, não parecia, mas agora via que a praia havia sido cansativa. Deixou-se adormecer. Enquanto dormia ainda, estranhamente, notou-se dormindo sozinha, uma solidão grande, quase um abandono.

Despertou na madrugada, mas não olhou novamente o celular, foi ao banheiro, visitou o próprio rosto, os cabelos longos pareciam esconde-lo menos agora, gostou disso, voltou para a cama, deu boa noite para o pai onde quer que ele estivesse e dormiu até o fim daquela noite, ou estação.