domingo, 28 de outubro de 2012

Invernia

Era ainda inverno. Ao despertar nesta manhã, como em todas as outras, lembrava-se da primeira vez que acordou sozinha naquela casa, quando ainda era verão.

A casa do pai na praia, "a casinha", como chamavam... Na frente o portão velho e baixo, mato, a casa rasteira de porta trancada a improviso. Morava lá sozinha agora. Um feito incrível - considerava, já que tinha seus 14 anos apenas.

Sorria nas manhãs, seu sorriso preferido de todos os tempos. Não que houvesse tantos tempos, ou estações em sua vida, mas isso incluía os tempos que ainda viriam e as estações que ainda não despontaram. Sorria para o espelho, sorriso solitário, mas íntimo, que uma foto não poderia guardar. Depois daquele momento e ritual pensou como seria seu dia. Os dias agora eram sempre seus. Mas hoje iria dividi-lo com seu pai, que novamente viria vê-la.

Era bom porque ele traria comida e talvez dinheiro. Sentia que seu pai se convencia de que ao menos a relação dos dois agora andava melhor. Sem brigas. Falavam pouco por causa das mágoas, mas falavam mais pelo que não diziam, o que incluía respeito pela força um do outro, e uma preocupação um com o outro...

Não iria a escola. Começou seu dia por arrumar a cama, tomou banho, fez seu café. Tomou o café calada, não havia com quem falar, mas tinha a impressão de que tomava o café calada, e isso era bom.

E assim, calada e séria decidiu que iria à praia pensar. Levou sua bolsa e o celular, pois o pai ligaria logo.

De repente, enquanto arrumava a casa para receber o pai sentiu um pavor a brotar-lhe, teve uma lembrança de certa briga pesada com ele, seu medo vinha de isso acontecer novamente e ela não ter mais forças para... Acalmou o peito com o pensamento de que, se isso acontecesse, não iria mesmo encara-lo, ela já não era mais a mesma, talvez esse fosse seu medo.

Caminhou para a praia, trajeto de mais ou menos um quilometro, mas em linha reta. Era uma trilha que conhecia desde criancinha e que adorava trilhar, e gostava ainda mais de voltar de moto com o pai.

Ainda hoje, aquele caminho era fechado, caminho de terra, poucos moradores, e muito da natureza própria do lugar.

A praia estava vazia, não era temporada, mas o tempo estava aberto e leve, o sol se fazia presente e a iluminava sem interferências. Sentou-se na areia e acendeu seu cigarro. Era inverno, e agora lhe ocorria o pensamento de como estava bem adaptada interiormente aquela estação, talvez por isso andava bem.

No inverno a natureza se recolhe, a vida se cala, as noites são mais longas e os dias mais curtos, lembrou-se das águas dos lagos congeladas, como via na tevê quando era criança, da neve, dos sons da natureza emudecidos e a terra adormecendo sob um tapete branco. Sim, já não lhe ocorria, já ha certo tempo, as explosões inquietantes e até aquele impulso que agora reconhecia como "rebeldia barata" encaminhava-se para a serenidade, não seria mais a garota que havia prometido ser... E reconhecia isso com essa serenidade. Isso lhe pareceu bom. Não sabia ainda exatamente quando lhe ocorreria a primavera em seu interior, quando sairia para fora a florescência dessa elaboração sua, mas isso não a preocupava, estava bem adaptada ao inverno, amava também o inverno, sabia que apenas aparentemente a natureza estava morta nessa estação, e que, nas profundezas da terra, as forças poderosas preparavam uma metamorfose, cujo o resultado só seria notado na estação seguinte.

Quando o cigarro acabou olhou o celular e as horas. O pai deveria ter preferido almoçar primeiro antes de vir - O que a desagradava. Ficaram combinados de que ligaria quando estivesse a caminho.

Decidiu ir comprar um sorvete no carrinho que agora passava. Foi molhar os pés no mar, comia o sorvete, admirava o sol.

Ligou a cobrar. Caixa-postal. Isso a incomodou mais, pensou em ligar para a casa do pai, falar com alguém, mas não, deixaria o recado para ele na caixa-postal como ele queria.

Uma certa raiva e preocupação a acompanhavam agora. Pensou em voltar para casa, mas ficou. Acendeu outro cigarro e esperou. Achou que o pai não viria mais, que a estava evitando por algum motivo, esperava agora por uma ligação sua para avisa-la. Poderia chegar a noite talvez, mas isso era improvável.

Nesse momento, sem aviso nem licença, um um garoto sentou-se ao seu lado. Ela o olhou, mas não disse nada, ele perguntou se ela estava bem, ela o olhou novamente, tinha um rosto bom. Conversaram brevemente sobre a estação, ele lhe perguntou o nome...

- Patricia.

Patricia cortou algo que ele ia dizer e lhe pediu de comer, o garoto riu e prontamente a atendeu, saiu e  voltou com um belo lanche.

- Você me salvou - sorriu ela para ele.

Conversaram mais, decidiram caminhar, se distraiu, embora um desespero secreto e mudo agora lhe crescesse. Nada do pai e por algum motivo ainda desconhecido, lhe era assustador voltar para casa com essa perspectiva.

Despediu-se do rapaz, agradeceu-lhe novamente, ele pediu o seu telefone, ela cedeu.

Voltava agora para casa assustada, como uma criança que havia se perdido, era fim de tarde, e a noite prometia ser das mais longas. Não havia mais uma moto para leva-la depressa para casa, leva-la a salvo para tomar banho, jantar e depois dormir exausta com a perspectiva de brincar ainda mais no dia seguinte. Estava só, e não havia mais brincadeiras para distrai-la disso. Pensou em ir no vizinho pedir emprestado o telefone, mas não.

Colocou a bolsa em cima da mesa, olhou outra vez o celular. Amaldiçoou o pai e foi para o chuveiro. Depois fez seu jantar e comeu falando sozinha. Pensava em não atender o telefone quando o pai ligasse mais tarde, mas isso lhe soou infantil, sim, era ainda muito infantil.

Começou a encarar a perspectiva de que talvez o pai havia decidido ignora-la, ver até onde ela ia de fato sozinha, havia falado com ele três dias atrás, mas isso não queria dizer nada. Sentiu medo de ficar sozinha nesta noite, ela poderia se virar bem ao menos nesse mês e no próximo, fez cálculos de providências, dinheiro, tinha ainda a escola, e uma professora para ajuda-la, sim poderia contar com ela. Armava-se assim contra o pai, mais uma vez.

Voltou a comer em silêncio. Mas no mais profundo, alguma coisa continuava a desesperando e traindo sua auto-confiança. Tomou água e foi para cama, não parecia, mas agora via que a praia havia sido cansativa. Deixou-se adormecer. Enquanto dormia ainda, estranhamente, notou-se dormindo sozinha, uma solidão grande, quase um abandono.

Despertou na madrugada, mas não olhou novamente o celular, foi ao banheiro, visitou o próprio rosto, os cabelos longos pareciam esconde-lo menos agora, gostou disso, voltou para a cama, deu boa noite para o pai onde quer que ele estivesse e dormiu até o fim daquela noite, ou estação.

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